domingo, 20 de abril de 2014
Sociopatia, Blade Runner e o Teste de Turing
Sociopatia, ou psicopatia, são os nomes populares do "distúrbio de personalidade anti-social", provavelmente o distúrbio mental que exerce maior terror - e fascínio - sobre a sociedade moderna. Uma visão superficial da Sociopatia pode elencar, ignorando quais sejam suas causas neurológicas, sociológicas ou psicológicas, um conjunto de características como egocentrismo, narcisismo, ausência de empatia, remorso, medo e outras emoções presentes nos comuns dos mortais, charme superficial, elevada capacidade de manipular outras pessoas, e uso inescrupuloso dessa capacidade, incapacidade de criar ligações pessoais profundas, tendência a mentir descaradamente se for conveniente. Soa familiar? O Sociopata raramente se torna um criminoso por ser como é, e muitos deles estão por aí, ocultando sua inadequação em interagir socialmente com uma combinação quase sempre feliz de traquejo social e capacidade de fingir as reações que internamente, não estão ocorrendo.
Mas então percebemos o primeiro fato que, se não surpreendente a esta altura, merece reflexão. O Ethos do nosso tempo é extremamente adequado aos Psicopatas. Na sua desafortunada sintomatologia a sociedade moderna vê qualidades inestimáveis, ou pelo menos, desejáveis. Estive outro dia assistindo a uma palestra do escritor Jon Ronson, autor do livro The Psychopath Test, onde ele comenta, entre outras coisas, sobre a elevada incidência de sociopatia entre grupos de cidadãos respeitáveis como CEOs de grandes empresas. Não falarei aqui do quanto é chocantemente subjetivo, se pensarmos bem a respeito, o conceito de Loucura. Meu ponto neste texto é que assim como com o conceito de Loucura, de maneira geral, a maneira como encaramos e tratamos a Psicopatia fala muito mais sobre nós, como Civilização, do que sobre os Psicopatas em si.
Em séries de TV como Dexter, psicopatas são pessoas bonitas e bem-sucedidas que navegam pelo mundo das convenções sociais como tubarões altamente competentes, e a metáfora do tubarão em si já nos diz muito. Livros como The Sociopath Next Door, de Martha Stout, ou The Psychopath Inside: A Neuroscientist's Personal Journey into the Dark Side of the Brain, de James Fallon, manifestam e exploram nosso fascínio pelos psicopatas, pela presumida aura de eficiência predadora que imaginamos neles, numa sociedade ideologicamente movida pela necessidade de ser indiferente ao fado dos nossos Semelhantes, se desejamos ser bem-sucedidos. Novamente, todas as metáforas do Capitalismo como selva são a sublimação da motivação subliminar de competir até a eliminação, ou seja qual for o eufemismo que queiramos usar, de concorrentes, se possível sem compaixão, sem custos emocionais, e sem sentir sofrimento pelo sofrimento que causarmos. É horrível ser um psicopata. Que delícia ser um psicopata.
E então minha memória me leva a outras alegorias de psicopatia. O Sr. Spock de Star Trek, com sua ausência de emoção impressa em seu DNA Vulcano, era um proto-exemplar da nossa fascinação pela frieza e indiferença como vantagens funcionais, embora a neurociência tenha eventualmente mostrado que a manifestação de resposta emocional no ser humano está necessariamente atrelada a nossa capacidade de tomar decisões. Nos quadros patológicos onde a emoção é suprimida de nossos cérebros, tornamo-nos de fato ineptos.
Mas minha primeira referência pessoal do nosso fascínio pela ausência de empatia e fria crueldade como valores marginalmente fascinantes vem de Blade Runner, o filme que sempre foi para mim, longe de tolices rasas como Star Wars, uma paixão nerd de verdadeiro valor.
À época em que assisti a Blade Runner pela(s) primeira(s) vez(es), no escuro de uma sala de cinema, eu não sabia o que era o Teste de Turing. O teste de Turing foi concebido pelo Matemático britânico Alan Turing como uma forma de avaliar o quanto um sistema de Inteligência Artificial seria capaz de simular a inteligência humana. Turing imaginou uma situação onde um Avaliador faria perguntas a duas entidades, sem contato direto com elas, e tentaria com bases nas respostas fornecidas textualmente ao mesmo conjunto de perguntas, identificar qual das entidades seria um legítimo ser humano, e qual seria um sistema de IA. Idealmente (para os pesquisadores em IA, ao menos) tornar-se-ia eventualmente dificílimo para o Avaliador distinguir a Máquina da Pessoa. Mas o que é uma Pessoa? À medida que aperfeiçoamos mais a capacidade de mimetizar nossas próprias faculdades cerebrais e intelectuais em sistemas de computadores, o que nos distingue como Humanos?
Em Blade Runner o teste de Turing era aplicado de forma adaptada para identificar Replicantes, máquinas cibernéticas de aparência perfeitamente humana, criadas para trabalho escravo. Os Replicantes, construídos para atuar como servos em trabalhos forçados ou para prazeres sexuais, tinham um período de vida curto e pré-definido. Eram criados para ser emocionalmente vazios e perfeitamente funcionais. Porém frequentemente suas "mentes" robóticas rebelavam-se contra seus destinos de escravos, levando-os a se tornarem rebeldes fugitivos e criminosos. A emoção se desenvolvia em seus cérebros artificiais como sub-produto da experiência mesma de Existir. Viver é Sentir.
Blade Runner é uma metáfora da busca pela Liberdade como qualidade distintiva do Ser Humano. A função mais nobre do cérebro humano é perguntar. Perguntar: Quem sou? De onde vim? Por que estou aqui?
No teste de Turing usado em Blade Runner o Avaliador tinha contato direto com o indivíduo avaliado e, de fato, o contato era fundamental para o processo de avaliação, porque como sabemos hoje, só uma pequena fração da interação humana é puramente verbal. Blade Runner mostra, talvez com a maior carga de Poesia que um filme de ficção científica pode mostrar, que Humanidade é um desses conceitos dificílimos de definir, e também surpreendentemente difíceis de identificar, quando ausentes. Há muita sutileza semântica em nos definir. É preciso muito mais que ser uma mulher ou um homem para ser humano.
Quantos de nós passaríamos no Teste de Turing aplicado por Rick Deckard?
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Postagem muito legal Artur!
ResponderExcluirTaí uma "falha de caráter", nunca vi Blade Runner... Essa conversa me lembrou o documentário The Corporation, que faz uma análise das corporações modernas, mostrando que se elas fossem vistas como pessoas, seriam psicopatas. Já viu?
ResponderExcluirÓtimo post, Artur! Sempre acompanho seus textos, pela capacidade de promover reflexão ou despertar curiosidades. Queria ter essa coragem, de largar a preguiça e compartilhar as loucas idéias que habitam nossas mentes! Abração!
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