quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cultura, Tecnologia, Civilização e Teletubbies


Ao conceber este blog, do conceito ao título, passando pela relutância em criar mais uma frente por onde escoar minha abundante ansiedade e, ao mesmo tempo, abrir mais uma porta à minha desabrida incompetência, estaquei durante dias diante da escolha do tema do meu primeiro post.

Karl Marx, que era homem de palavras e digestões ácidas, brindou a sociedade capitalista de seu tempo com este gracejo. A civilização ocidental é "Bellum Omnia Contra Omnes", guerra de todos contra todos. Mas a frase vem do filósofo inglês Thommas Hobbes, que a usou no século XVII, no seu Leviatã.
Em ambos os autores o conjunto da existência humana é um esforço penoso pela existência, para a maioria, e pela riqueza social, para uns poucos. A harmonia social é construída no próprio espaço do Conflito, onde interesses pessoais se fundem em estratégias coletivas, e grupos que não desejam ou não podem arcar com o custo de aniquilar-se mutuamente estabelecem regras do convívio, constituindo sobre a produção da subsistência a possibilidade da Paz, da Arte, da Política, da Cultura. Há muito que se pode elaborar, inclusive no campo da Biologia, sobre o altruísmo e a ética como as expressões mais elevadas do egoísmo humano.

O Capitalismo nos potencializou e super-excitou como uma carreira de cocaína, nos atirou para a frente no espaço estilhaçado das nossas potencialidades como a explosão de uma bomba. Impulsionou o animal humano para a criação e auto-satisfação de necessidades jamais sonhadas, muito além da mera mitigação das necessidades básicas da pirâmide de Maslow, alçou-nos à condição de semideuses do nosso próprio universo. E então vieram os teletubbies.

Eu já era obviamente um adulto quando surgiram os teletubbies, e os teletubbies se afiguraram à minha imaginação como uma das concepções mais sinistras já difundidas pela cultura de massa. Os teletubbies são crianças que embora demonstrem uma absoluta falta de aptidão e autonomia para lidar com a parafernália tecnológica que os cerca, vivem sozinhos e isolados num mundo planejado e artificial nos mais ínfimos detalhes, desde a grama em que brincam até o aparelho onde são alimentados.
Os teletubbies são crianças e vivem sozinhos, não há adultos com eles. Neste sentido se inserem numa longa tradição de personagens infantis órfãos, de Tintin aos sobrinhos do Pato Donald. Mas eles não são livres. A rotina dos garotos segue programações rígidas de trabalho e lazer, ditadas por uma voz suave e firme que os comanda do despertar até o momento de se recolher.

Por que os teletubbies estão lá? Quem os concebeu? Quem construiu o maquinário que os cerca? Quem o mantém? A resposta sutil é que os teletubbies são gado. Os teletubbies, como na fábula de João e Maria, estão sendo mantidos num processo de engorda. Os teletubbies são propriedade, são alimento de alguém.
E assim é, os teletubbies são uma alegoria de nós mesmos, tornados dependentes e incompletos pela divisão ad absurdum do trabalho social, que nos fez incapazes de cuidarmos dos aspectos básicos de nossa vida, e que não sabemos, de fato, como funciona a maioria dos artefatos que nos rodeiam. Não estamos aptos, em absoluto, a mantê-los funcionando. Somos, de fato, educados para não saber, ou para saber cada vez menos, sentindo-nos confortavelmente seguros e auto-confiantes em pequenas ilhas de auto-indulgência cercadas de ignorância por todos os lados. Não se trata, de fato, de ser a favor ou contra a Tecnologia, o que é completamente irrelevante, mas de reconhecer que da eletricidade aos combustíveis fósseis ao aço aos circuitos integrados aos polímeros à nanotecnologia ao grafeno, somos insignificantes como produtores da nossa própria Realidade. Somos as engrenagens de Charlie Chaplin enquanto operários idiotizados e somos o óleo da engrenagem social enquanto consumidores estúpidos. Somos todos teletubbies. E com isto encerro, porque é hora de dar tchau.